Comentários de A. Amorim


Comentários sobre a reportagem do Notícias do Dia, 15-16 de junho de 2013

Os repórteres Edson Rosa e Luiz Evangelista prepararam uma excelente reportagem sobre os sítios astroarqueológicos existentes na Ilha de Santa Catarina, a exemplo do que ocorreu na edição de 25-26 de dezembro de 2011 do Diário Catarinense. A reportagem foi matéria de capa da edição do dia 15 e 16 de junho de 2013 e aparece nas páginas 16 e 17. O texto on-line foi disponibilizado no website do  mesmo periódico Notícias do Dia (acesso em 16/jun/2013 às 10:39 ebt).
É elogiável o trabalho da reportagem local em mostrar aos leitores sobre a pesquisa arqueoastronômica realizada em Santa Catarina. No entanto, uma vez que meu nome bem como vários trechos de minha autoria aparecem na matéria (e sem prévia autorização), gostaria de esclarecer alguns tópicos e apontar correções no texto publicado.

Morro da Galheta. Sítio arqueológico é o ponto de observação astronômica
"Segundo o astrônomo Alexandre Amorim, rochas sobrepostas sobre três bases são evidências de que antigos habitantes do litoral, coletores que viviam de caça e pesca milhares de anos antes da chegada dos europeus, tinham conhecimentos de astronomia."

Comentário: em nenhum momento afirmei isso! A reportagem não entrou em contato comigo tampouco prestei alguma informação à reportagem. Porém há alguns trechos da afirmação que me são familiares: trata-se de trechos do artigo de minha autoria disponível no website do IMMA. Apesar do artigo ser escrito em 2008, eu, Alexandre Amorim, continuo com a seguinte ideia:

"...até o momento não há resposta afirmativa ou negativa para a seguinte questão:
Os alinhamentos encontrados nos três sítios acima eram usados por anteriores habitantes da Ilha?
"

De modo que jamais afirmei que a sobreposição de rochas em três bases sejam evidências de que antigos habitantes tinham conhecimentos de astronomia.


Caminhada para ver o sol nascer
"Para o próximo fim de semana [i.e., 22-23 de junho], está prevista mais uma caminhada astronômica do Leste da Ilha, a 23ª desde o início das pesquisas, em 1986. Depois do curso teórico, no sábado à tarde o grupo será guiado até o topo do morro, seguindo as trilhas aos pontos de observação demarcados..."

Comentário: o texto faz uma mistura de informações, confundindo as atividades do Workshop de Arqueoastronomia com a 23ª Caminhada Arqueoastronômica. Agradecemos profundamente a divulgação de ambas as atividades promovidas pelo IMMA. Mas precisamos esclarecer o seguinte:

Caminhada Arqueoastronômica: atividade pública e gratuita realizada desde dezembro de 2007. A 23ª edição ocorrerá na Trilha da Barra da Lagoa, no amanhecer de sábado, dia 22 de junho. Mais informações estão neste link: http://www.immabrasil.com.br/atividades/22jun2013.htm

Workshop de Arqueoastronomia: atividade pública porém paga que será realizada tanto no sábado como no domingo, manhã, tarde e noite, (dias 22-23 de junho), englobando palestras e diversas visitas guiadas. Programação completa e valor da inscrição estão neste link: http://www.immabrasil.com.br/atividades/22jun2013.pdf


Box "Leste da Ilha - Sítios Arqueoastronômicos"

Comentário: a descrição dos três sítios selecionados (Pedra do Frade, Ponta do Gravatá e Morro da Galheta) copiou inúmeros trechos do artigo de minha autoria - Introdução à Arqueoastronomia - disponível no website do IMMA. Usar o artigo como fonte de informação não é o problema, mas a reportagem em nenhum trecho mencionou as referências. Abaixo temos uma comparação dos textos, em negrito são trechos congruentes.

Artigo de A. Amorim (2008)
Reportagem do Notícias do Dia 15-16/jun/2013
Pedra do Frade

Este sítio está localizado no costão da Barra da Lagoa. Após atravessar a ponte pênsil e a prainha da Barra da Lagoa, seguindo pela Trilha das Piscinas Naturais. Cerca de 10 minutos de caminhada pelo costão nota-se duas colunas de pedras que se destacam em relação ao ambiente, conforme Figura 1. Percebe-se que as duas pedras permitem a observação de um intervalo do horizonte. O observador não tem opção de se movimentar ao norte pois há o mar, tampouco ao sul pois tem o início do Morro do Farol da Barra. Estando de frente à Pedra do Frade e notando o intervalo do horizonte visível entre as duas rochas, o observador testemunha o nascer do Sol na época do solstício de verão do hemisfério sul (21-22 de dezembro, Figura 2). O ponto de observação está situado a 50 metros da Pedra do Frade e foi encontrada nesta posição uma pedra com linhas onduladas, catalogada por Keler Lucas como SIV-6. Este mesmo sítio está relacionado com o solstício de inverno, bastando o observador se posicionar a sudoeste da Pedra do Frade e notar o nascer do Sol entre as duas rochas.
Continuando o caminho pelo costão encontram-se outros quatro petroglifos em forma de rede, linhas cruzadas e onduladas. Isto é significativo pois indica que houve presença humana no local.
Pedra do Frade

Localizado no costão da Barra da Lagoa, após a travessia da ponte pênsil e a prainha, pela trilha das piscinas naturais. Cerca de 10 minutos de caminhada pelo costão revela duas colunas de pedras que se destacam em relação ao ambiente e permitem a observação de um intervalo do horizonte. Diante da pedra do Frade ocorre o nascer do Sol na época do solstício de verão do hemisfério sul conforme foi catalogado pelo pesquisador Keler Lucas. Este mesmo sítio está relacionado com o solstício de inverno a sudoeste da pedra do Frade quando o sol nasce entre as duas rochas. No mesmo costão, há quatro petroglifos em forma de rede, linhas cruzadas e onduladas, o que pode indicar a presença humana no local.

Ponta do Gravatá

Este sítio possui várias formações rochosas pitorescas porém uma chama a atenção pelo fato de uma pedra similar a um cubo estar repousada sobre uma plataforma. O ponto de observação é singular pois situa-se no limite de um pequeno abismo de 5 metros (Figura 3). Exatamente nesta posição limite o observador nota a linha do horizonte tocando o ponto entre a pedra e a plataforma. E neste cruzamento de linhas é a posição do nascer do Sol no solstício de verão (Figura 4). Até o momento não encontrou-se petroglifos ou outro vestígio de presença humana antiga a não ser na pequena praia do Gravatá onde existem diversos amoladores.
Ponta do Gravatá

São várias formações rochosas pitorescas, e uma delas chama a atenção. Trata-se de uma pedra similar a um cubo, repousada sobre uma plataforma no limite de abismo de 5 metros. Neste ponto é possível observar a linha do horizonte tocando o ponto entre a pedra e a plataforma. Neste cruzamento de linhas ocorre o amanhecer no solstício de verão. Na praia, diversos amoladores são sinais deixados por antigas civilizações na Ilha.

Morro da Galheta

A peculiaridade deste sítio reside no fato de estar relacionado principalmente com os equinócios embora haja alguns alinhamentos solsticiais. Em relação aos equinócios encontramos três pedras com tamanho em torno de 3 metros nomeadas nas Figuras 5 como A, B e C. A pedra A repousa sobre a pedra B. Já a pedra C encontra-se cerca de 3 metros à leste das primeiras. O observador deve se situar a oeste destas pedras, próximo a uma parede rochosa, de modo que a conjunção das três pedras formem uma minúscula janela onde a linha do horizonte atravessa o seu interior (Figura 5). Se o observador deslocar-se a sua direita, a janela fecha-se, e se o observador deslocar-se a sua esquerda, a janela se desfaz. Exatamente na direção da janela o Sol nasce por ocasião dos equinócios (20-21 de março ou 21-22 de setembro, Figura 6). É sabido que o movimento aparente do Sol na linha do horizonte durante a época dos equinócios é maior do que durante os solstícios em virtude da inclinação relativa da eclíptica com o equador celeste. O autor ainda não observou o comportamento do feixe de luz solar sobre a parede rochosa. O único vestígio arqueológico nas proximidades é uma inscrição rupestre descoberta por Adnir Ramos localizada numa das trilhas de acesso (também conhecida por Caminho dos Reis).
Morro da Galheta

Sítio está relacionado principalmente com os equinócios embora haja alguns alinhamentos solsticiais. Em relação aos equinócios há o alinhamento de três pedras com cerca de três metros. Uma subreposta à outra, e a terceira a cerca de três metros à leste das primeiras. A oeste, próximo a uma parede rochosa, percebe-se minúscula janela de onde se avista a linha do horizonte, e o nascer do sol no solstício de inverno (sic!). O único vestígio arqueológico nas proximidades é uma inscrição rupestre descoberta por Adnir Ramos na trilha conhecida como Caminho dos Reis.

Alexandre Amorim
Astrônomo amador

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