Resgatando os mitos celestes dos ameríndios
por Johnni Langer
Universidade Federal do Maranhão

Desde que surgiu nos anos 1960, a Etnoastronomia tem se firmado como uma ciência ousada, indo muito além das fronteiras que separam as ciências humanas das exatas. Mas apesar dos grandes avanços que ela tem conhecido nos Estados Unidos e Europa, muito pouco tem se produzido dentro desta metodologia em nosso país.
A publicação de A Astronomia indígena (São Paulo: Nova Alexandria, 2011), do historiador Luiz Galdino, em parte, vem sanar essa lacuna para o grande público e os acadêmicos brasileiros. Galdino é pioneiro nas investigações etnoastronômicas do Brasil, tendo publicado diversos artigos desde os anos 1970 em revistas acadêmicas e de popularização [1]. Foi o redescobridor do alinhamento megalítico de Monte Alto, na Bahia, ainda nos anos 1970, depois estudado pelo Museu Nacional durante a década de 1990. O livro apresenta uma síntese de suas pesquisas de campo, além de contextualizar dados mais recentes com uma bibliografia sobre o tema. A obra pode ser dividida em duas partes distintas – uma primeira, voltada mais para uma introdução teórica e conceitual, enquanto que a segunda inclina-se mais para os dados empíricos. Já no seu início, o autor confronta-se com a tradicional desconfiança da Arqueologia nacional, avessa a idéias inovadoras e típica dos anos 1950 a 1990, que tratou todo assunto referente ao megalitismo e interpretações astronômicas da arte rupestre como temas fantasiosos, de caráter duvidoso e semelhante às teorias dos alienígenas na pré-história – algo que vem sendo totalmente revisto hoje em dia. Outra idéia também rechaçada por Galdino é a de que Astronomia seria algo extremamente complexo demais para povos ditos “primitivos” ou “arcaicos” pudessem ter conhecimento para elaborá-lo. A pesquisa acadêmica vem demonstrando que a tradição astronômica é algo construída pela experiência visual, observação constante e oralidade – sendo mais complexa à medida que a sociedade em questão possui outros tipos de tecnologias e recursos culturais (como registro escrito e cálculos matemáticos).
Uma das metodologias favoritas de Galdino é o uso da mitologia comparada – um recurso amplamente utilizado nos dias de hoje por etnoastrônomos do Leste europeu, como Andres Kuperjanov. Aqui não se trata de voltar ao velho método desenvolvido no século XIX e XX, por autores como Max Muller, Carl Jung ou Mircea Eliade, onde os mitos do mundo inteiro refletiriam padrões universais e atemporais (arquetípicos, fenomenológicos ou psicológicos), mas de fenômenos astronômicos idênticos e interpretados por culturas e épocas diferentes, originado mitologias similares ou diferenciadas entre si. Assim, grupos estelares em específico receberam grande importância em diferentes regiões do mundo (como as Plêiades, a constelação de Escorpião ou o cinturão de Órion), com diversas narrativas míticas. Neste sentido, Galdino concede ao leitor um grande panorama destas mitologias, seja ao estudar as tradições dos indígenas brasileiros, seja ao demonstrar o conhecimento náutico e folclórico dos povos da Polinésia. Também as tradições celestes de diversas etnias da América não foram esquecidas, especialmente os Hopi na América do Norte e Incas na região andina.

Possível representação do aglomerado das Plêiades (constelação do Touro), Médio São Francisco, Bahia, fotografia de Luiz Galdino.
As pinturas e gravuras da arte rupestre brasileira receberam uma atenção especial no livro. De Norte a Sul do país, Galdino recolheu dados, fotografias e comparações entre as diferentes tradições artísticas e culturais do passado indígena, indo para conclusões que vão de do registro de astros (como Sol, Lua, estrelas, planetas e cometas), de asterismos (como as constelações da anta, da onça e do homem velho) até o desenvolvimento de sistemas de calendários e demarcações de solstícios e equinócios.
Outro destaque da obra são os vestígios de megálitos em nossa pré-história. Galdino é pioneiro na divulgação de antigas descrições de monumentos como menires e cromlechs (alinhamentos circulares), relatados desde os tempos coloniais e por pesquisadores do Império, mas que sempre foram classificados como “material suspeito” pela Arqueologia acadêmica tradicional, visto que sobreviveram poucos remanescentes. Recentemente, diversas descobertas a partir dos anos 1990 inverteram esse quadro. Pesquisas efetuadas em diversas áreas do Paraná (incluindo as de nossa autoria, como menires na região de Cruz Machado) [2], Bahia (Monte Alto, o alinhamento redescoberto por Galdino nos anos 1970, onde uma equipe do Museu Nacional determinou que seria uma projeção da região entre Pégaso e as Plêiades) [3] e Calçoene no Amapá, estão demonstrando que a relação entre megalitismo e Astronomia não é privilégio somente da Europa (como Stonehenge e Carnac) e América Latina (Tafi na Argentina).
Desta maneira, o livro A Astronomia indígena é uma obra recomendada aos interessados no estudo das mitologias celestes, na arte e cultura pré-histórica, enfim, no conhecimento ancestral do firmamento. Numa época onde a humanidade preocupa-se somente com o seu cotidiano de sobrevivência material, esquecendo-se de olhar para o céu e contemplar as maravilhas da natureza, certamente o livro de Galdino é um alento para um sentimento que vai muito além da ciência. Ser humano, acima de tudo, é interagir com o natural, é produzir mitos.

Referências:

[1] GALDINO, Luiz. Eram os índios astrônomos? Revista Planeta, São Paulo, 1974.
[2] LANGER, Johnni & SANTOS, Sérgio Ferreira. Megálitos e petróglifos no Médio Iguaçu. Ensino e Pesquisa v. 1, União da Vitória, PR, 2002.
[3] BELTRÃO, Maria da Conceição et alli. Um calendário das Plêiades na Bahia. Revista Icomos-Brasil, São Paulo, 1998.


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